terça-feira, 25 de outubro de 2011

Contos de Gaian - Momento Crucial

Olá visitantes, sejam bem-vindos.

Hoje eu apresento a vocês o primeiro conto que escrevi a respeito de um trecho da estória de Gaian. A título de explicação, esse conto narra fatos que aconteceram em um período anterior (bem anterior) à Gaian, O Reinício e Gaian, Luz e Escuridão. Eu não quero explicar muito esse conto para não estragar a leitura, mas posso dizer que esse conto diz respeito a acontecimentos que datam do final da Primeira Grande Guerra que ocorreu em Gaian. A Primeira Grande Guerra foi um conjunto de acontecimentos que definiu uma era social, cultural e militar dos povos de Gaian (era essa conhecida como Era da Aurora), dando início a outra que foi nominada como Era Dourada.

Eu espero que vocês apreciem a leitura do conto e de todos seus detalhes.

Sinceramente,

Cláudio Manoel.

Momento crucial

Era tarde e o sol já iria alcançar seu caminho oculto. No céu de Krenak, capital do Reino do Sol, havia belas nuvens. Elas eram sutis, levemente delineadas – talvez por mãos divinas – e muito longínquas, detendo em seus contornos leves os magníficos, compenetrantes e progressivos tons do crepúsculo, próximo do ápice – o seu fim.
Para os que presenciavam o fim do entardecer, mais um dentre tantos dignos de admiração, ele representava a beleza, a realidade, o adeus e o tempo, uma simbologia quase exata do caminho eterno da vida.
No entanto, o encanto do momento fora abalado e logo seria alterado, pois ao longe em meio à esfera de fogo, que se punha lenta, surgiu uma grande massa – visível para muitos. Ela logo revelou seu destino, o grande palácio de Krenak, monumental em tamanho e forte em defesa. Sem delongas todas as sentinelas souberam do que se tratava, pois a massa tomou forma e alcançou o pátio vasto do castelo em um pouso rápido e agitado.
– Rei Kor Oman, seja bem-vindo. – disse uma das sentinelas que se apresentaram de imediato.
O rei, que tinha um semblante sério e tenso, desceu de Hogan, o dragão azul também conhecido como fogo azul, e respondeu.
– Agradeço, mas o tempo agora não é para cerimônias. Por favor, traga-me o livro Tempus agora.
A sentinela apenas o fitou e disse.
– Não é possível. O senhor bem sabe que, nestes tempos de guerra, ninguém pode ter acesso ao livro sagrado.
Kor Oman meneou a cabeça em afirmativo, mas falou em seguida, deixando transparecer sua agonia e seu leve destempero.
– Solicito um encontro com a rainha Moyra e é de extrema urgência que ele ocorra o mais breve possível.
O guarda fez uma reverência ao rei e saiu.
A rainha Moyra Tukron comparecer ao pátio pouco tempo depois e convidou o Rei Branco para um recinto do palácio. No entanto, ele não aceitou e os dois tiveram uma conversa reservada em um dos jardins, na qual foi explicado a rainha os rumores da guerra e o pressentimento de Kor a respeito do novo inimigo que surgiu, do perigo que poderia se transmutar em tragédia e da escolha feita por ele em abandonar temporariamente o campo de batalha para aprender os segredos do livro Tempus. Ao ouvir atentamente as palavras de Kor Oman, Moyra viu nos olhos dele a angústia que lhe habitava a alma. Depois de refletir sobre o que fora dito e sobre as impressões que tivera, ela permitiu que o Rei Branco usasse o livro Tempus em Krenak e somente em ali, sendo lhe prestado qualquer auxílio necessário.
Então Kor Oman começou o estudo do livro Tempus e dos escritos misteriosos contidos em suas páginas espessas. A sua busca era tão intensa que a vida dele naquele momento se converteu totalmente em seu objetivo. Ele desconheceu o tempo ordinário e pouco dormia, atingindo quase a loucura e o devaneio, evitados pelo seu desejo que aflorava como lembrança amarga e pelo seu olhar que se dirigia várias vezes para o horizonte oeste.
No raiar do décimo segundo dia, Kor Oman se dirigiu para as pastagens na área nordeste de Krenak. Lá onde os espaços eram amplos ele começou seu duro treinamento com magia sagrada. Foram dias agitados, pois estrondos, gritos, invocações e sons estranhos eram ouvidos. E as luzes, principalmente nas noites límpidas, eram um espetáculo belo, misterioso e tenebroso, porque elas tinham várias formas. Algumas rompiam o céu com rapidez. Outras tinham permanência e intensidade. Umas ascendiam ao infinito deixando a impressão que de repente a terra e o firmamento estavam ligados. Todos se perguntavam o que estaria acontecendo nos campos de Krenak até que, no final do vigésimo dia, todo som, luz ou movimento cessaram.
Moyra, a rainha dourada, então foi alertada e ordenou que um grupo descobrisse o que havia acontecido com o rei Kor. Ao chegarem ao campo, encontraram-no imundo, ferido e desfalecido com sua espada e o livro Tempus ao lado. Ele sem demora foi levado ao palácio e recebeu cuidados especiais. Os dois artefatos foram recolhidos. A espada foi colocada em um pedestal ao lado de Kor e o livro Tempus no salão Ocen. No vigésimo segundo dia ele despertou calmo e sério em meio a um silêncio que parecia surgir da sua alma. E seu olhar estava diferente, era mais sábio, dotado de uma compreensão nova.
Ele se ergueu lentamente. E visou o nascente intenso. Os que presenciaram a cena viram outra pessoa, não o rei que havia chegado há vinte e dois dias atrás, porque, além de mais forte, ele tinha agora em seu semblante um mistério incompreensível, uma sensação profunda de grandeza aliada à determinação. Ele, sem dizer uma palavra, pegou sua espada, dirigiu-se ao pátio e fitou o céu. De repente, Hogan, seu dragão apareceu e pousou no solo. Moyra, vendo Kor Oman, mandou trazer um recipiente com alguns alimentos, pois era notável que o rei branco deixaria Krenak naquele instante.
– Eis, grande rei, um auxílio para o seu regresso.
– Minha gratidão por sua ajuda e por sua compreensão. Os dias, que aqui se foram, muito valiosos se revelaram.
O rei então desembainhou Austral, sua espada, e a ergueu verticalmente até a altura da cabeça. A gema no pomo brilhou intensamente. Para surpresa de todos, uma reluzente armadura surgiu sobre o corpo de Kor Oman. Os olhares, ao mesmo tempo, eram de admiração e encanto. Em seguida, a armadura desapareceu e o rei branco embainhou sua arma.
– Kor Oman, percebo agora o motivo da sua mudança e muito me alegro por isso, pois o futuro se mostra melhor.
Com um olhar impassível e um semblante austero o rei respondeu.
– Ainda assim, incerto é o futuro, porque a oeste anda um homem que parece desconhecer o medo e deseja com simplicidade a humilhação e a morte de seus inimigos.
Muitos dos presentes tremeram ao ouvir as palavras do Rei Branco, mas este permaneceu inalterado, porque seu espírito queimava em consciência, força e poder. Depois de observar e perceber a agonia de seus conterrâneos de alma, ele tocou Hogan que adquiriu novo tamanho e musculatura – ficando mais alto, forte e belo. Todos se impressionaram novamente e os servos, soldados e nobres presentes se ajoelharam em reverência a Kor Oman. Apenas Moyra ficou em pé, a observar.
– Rainha do Reino do Sol, agradeço sua hospitalidade e bondade.
Partiu então Kor Oman na direção da guerra. Logo ele a alcançou nos campos de seu exército, afastado das batalhas e imóvel desde a partida de seu líder e principal general. Muitas foram as salvas ao Rei Branco. Notícias da guerra lhe foram trazidas e sua preocupação aumentou ainda mais. De imediato, ele convocou todos seus generais e começou a lhes ensinar algumas magias sagradas. E, assim que aprenderam, eles as ensinaram para seus capitães. Assim foi até que as hierarquias mais baixas soubessem as magias sagradas passadas por Kor Oman. Em pouco tempo – pois o rei forçou ao máximo o esforço de seus soldados, mesmo percebendo que eles tinham dificuldade em aprender magias sagradas – o exército do Reino Branco aprendeu várias artes mágicas contida no livro Tempus e partiu para a batalha que ocorria no lado oeste do Reino do Rio Dourado.
Diante do crepúsculo que se anunciava, Kor Oman, o maior rei da segunda Era de Gaian, – nominada anos depois por Guiller, o primeiro rei do elfos e mais sábio deles, como a Era Dourada – presenciando o terror em Myrint e o desespero dos quatro reis e seus exércitos, empunhou alto Austral, a justiceira branca, e revelou todo seu resplendor e sua intensidade. Mas, em igual poder, ele fora desafiado pelo grande inimigo daquele tempo: Kurak Khan, o mestre da ruína, portador da grande espada por ele denominada Shuroc, a detentora do mal, e senhor de Zulkrun, o dragão negro da morte – outrora chamados de Balcan, a estrela infinita, e Riuram, o dragão da noite, os espólios de Myem Atla, o ex-rei do Reino Mryiu.
E diante de todos, os dois guerreiros em seus dragões se encararam e se encontraram nos amplos céus de Myrint. Desse choque resultou uma batalha que olhos – humanos, elfos ou bestiais – nunca haviam presenciado, pois ela era incessante e agressiva. Em determinado momento, Kurak Khan revelou a todos seu profundo conhecimento sobre magias sagradas. Mas, antes do reinício da batalha, o rei Kor Oman invocou sua armadura e a de seu dragão. Grande foi o espanto de Khan que percebeu a força e o poder do Rei Branco.
Então a batalha recomeçou – mais sangrenta e brutal. Sem demora, os guerreiros e seus dragões foram ao chão em um embate que provocou um tremor fortíssimo. Hogan e Zulkrun rumaram aos céus e se atacaram com ferocidade, liberando fogos tingidos de sangue. Mas o combate dracônico foi curto, porque Hogan era mais forte e Zulkrun caiu morto pelas potentes mandíbulas do dragão azul. Em solo, Kor Oman infligiu ferimentos a Kurak Khan, mas este, por ser mais poderoso, atingiu o rei branco com golpes mais sérios e potentes. No entanto, a luta estava em seus primeiros movimentos, pois os observadores da batalha viram dois guerreiros incansáveis e determinados que, mesmo feridos, progrediam ou defendiam com violência. Então, quando crepúsculo se tornou forte, vermelho e nítido, Kor Oman, ao ver os campos devastados de Myrint e os corpos de soldados jazidos sem vida, foi tomado por uma sensação inexplicável que inundou sua alma e seu corpo. Ele, súbito, soltou um grito terrível e seu estado de equilíbrio foi rompido por uma fúria impossível de ser controlada. Kurak Khan, apesar das grandes capacidades, não pôde impedir as ações de Kor Oman e acabou morto pelo Rei Branco que cravou a espada no coração do inimigo.
Todos os aliados de Kor Oman de comemoraram a vitória. O Rei Branco arrancou Austral do peito de seu falecido inimigo e a ergueu alto com as duas mãos. Ela brilhou por completo, mostrando todas as inscrições da lâmina que reverberaram através do sangue. Mas, súbito, ele caiu sem consciência e quase morto. E a batalha nos campos de Myrint retomou seu ritmo anterior, porque os inimigos vislumbraram uma possibilidade de vitória. Contudo, foi apenas uma ilusão. O exército do Reino Branco, o mais forte e preparado de Gaian, avançou sobre o campo de batalha e encerrou a guerra. Depois da vitória, por ordem do rei Morerak Tukron do Reino do Sol, todos os inimigos sobreviventes foram mortos.
No entanto, a maior preocupação era o estado do rei Kor Oman e ele recebeu os primeiros socorros em Myrint. Mas, como as feridas foram provocadas por Shuroc e a espada fora enfeitiçada por Kurak Khan, pouco pôde ser feito. Quando a morte parecia ser o destino certo de Kor Oman, ele despertou e falou para o rei Guiller Ehemar, seu grande amigo.
– Tempus...Tempus é a resposta e a cura.
Em seguida, o rei branco desmaiou. Guiller e Morerak ordenaram que Kor fosse levado a Eldor e de imediato partiram para Krenak. Já Shuroc, foi recolhida e guardada em um lugar que poucos sabiam. Por algum milagre ou força interior, Kor Oman resistiu aos ferimentos, enquanto Guiller estudava os segredos do livro Tempus. Várias magias de cura o rei elfo aprendeu e as usou para salvar Kor Oman. Mas foi um processo demorado. Somente nove meses depois da grande batalha de Myrint que definiu a Primeira Grande Guerra de Gaian, o rei Kor Oman se recuperou por completo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário